O encontro com Deus na tempestade


Oi, pessoal!!
O texto que segue abaixo faz parte da introdução ao livro de Jó, na bíblia A mensagem.
É um texto longo, mas é importante que vocês leiam até o final! Tenho certeza que vocês serão muito edificados!
...
Graça e Paz!
...

      Jó sofreu. Seu nome é sinônimo de sofrimento. Ele perguntou: "Por quê?" e "Por que eu?". Questionou Deus de modo persistente, colérico e eloquente. Ele se recusou a aceitar o silêncio como resposta. Ele se recusou a aceitar clichês como resposta. Ele se recusou a tirar Deus de uma situação difícil.
        Jó não aceitou seu sofrimento calma e piamente. Ele não deu ouvido aos doutores e filósofos: foi buscar uma segunda opinião. Jó apresentou seu caso diante de Deus e ali se queixou de seus sofrimentos, sem meias palavras.
       Não é só porque Jó sofreu que ele é importante para nós. Sua importância deve-se ao fato de que ele sofreu da mesma forma que nós sofremos - nas áreas vitais da família, da saúde e dos bens materiais. Jó também é importante para nós porque ele, de modo perspicaz, questionou e se queixou de seu sofrimento. Sem dúvida, ele foi ao extremo com suas perguntas.

      Não é o sofrimento que nos perturba. É o sofrimento não merecido.
     Quase todos nós, em nossos anos de crescimento, tivemos experiências de desobedecer aos nossos pais e, portanto, recebemos alguma punição. Quando a disciplina estava vinculada ao erro, havia um sentimento de justiça: se erramos, seremos punidos.
     Uma das surpresas que temos depois de crescer, entretanto, é que não há correlação verdadeira entre a quantidade de erros que cometemos e a quantidade de dor que experimentamos. Uma surpresa ainda maior é que quase sempre ocorre o oposto: fazemos o que é certo e recebemos pancada. Fazemos o melhor que podemos e, quando já estamos prontos para receber nossa recompensa, somos atingidos por um golpe inesperado e perdemos o equilíbrio.
    É o tipo de sofrimento que, primeiramente, nos confunde e, depois, nos ofende. Foi esse sofrimento que deixou Jó confuso e ofendido, pois ele estava fazendo tudo certo, quando, de repente, tudo veio abaixo. E é esse o tipo de sofrimento que Jó expressou quando protestou contra Deus.
     Jó expressa seu sofrimento tão bem, tão correta e honestamente, que qualquer um que já tenha sofrido - o que inclui cada um de nós - é capaz de reconhecer sua dor pessoal na voz de Jó. Jó diz corajosamente o que alguns de nós tem medo de dizer. Ele faz poesia daquilo que, para a maioria de nós, não passaria de uma mistura de queixas balbuciadas. Ele expressa em voz alta diante de Deus o que muitos de nós se limitam a murmurar em oculto. Ele se recusa a aceitar o papel de vítima derrotada.
       É importante notar também o que Jó não faz, para que não esperemos dele alguma atitude que ele não pretende. Jó não amaldiçoa a Deus, como sua esposa sugere, na tentativa de se livrar do problema ao livrar-se de Deus nem explica o sofrimento. Ele não nos ensina como viver para evitar o sofrimento. O sofrimento é um mistério, e Jó respeita o mistério.
      No processo de encarar, questionar e respeitar o sofrimento, Jó se descobre dentro de um mistério ainda maior - um mistério de Deus. Talvez o maior mistério no sofrimento é como ele pode levar o ser humano à presença de Deus num estado de adoração, tomado de surpresa, amor e louvor. O sofrimento não faz isso automaticamente, mas o faz com muita frequência, bem mais do que poderíamos imaginar. Isso aconteceu com Jó. Mesmo na resposta à esposa, ele usa de refinada ironia, um tipo obscuro e difícil de verdade: "Recebemos os dias agradáveis de Deus: por que não os dias desagradáveis?"

    Mas há no livro de Jó mais do que Jó: temos os amigos de Jó. No momento em que nos encontramos com algum tipo de problema - doentes no hospital, desolados pela morte de um amigo, descartados de um trabalho ou de um relacionamento, deprimidos ou desnorteados - , alguém sempre aparece, revelando-nos o que está errado conosco e o que devemos fazer para melhorar. Os que sofrem atraem os que consertam, como a carniça atrai os abutres. No início, ficamos impressionados com o fato de eles se importarem conosco e maravilhados com a facilidade que tem para encontrar respostas. Eles sabem tanto! Como se tornaram tão espertos em existência humana?
      Na maioria das vezes, eles usam a Palavra de Deus com espantosa naturalidade. São capazes de apresentar os mais variados diagnósticos e prescrições espirituais. E tudo soa tão coerente! Mas, então, começamos a perguntar: "Por que, apesar da aparente compaixão deles, nos sentimos piores, não melhores, depois de ouvir seu discurso?"
       O livro de Jó não é apenas uma testemunha da dignidade do sofrimento e da presença de Deus em nosso sofrimento: é também o principal protesto bíblico contra a religião que foi reduzida a explicações ou "respostas". Muitas das respostas que os chamados "amigos de Jó" dão a ele são, tecnicamente, verdadeiras. Mas é a parte "técnica" que as destrói. São respostas sem relacionamento pessoal; explicações intelectuais, mas sem intimidade. As respostas aplicadas à vida devastada de Jó como o rótulo numa garrafa. Jó se enfurece contra essa sabedoria secularizada, que perdeu contato com as vivas realidades de Deus.
       Em cada geração, surgem homens e mulheres que fingem ter condições de nos ensinar um modo de vida que nos faça "saudáveis, ricos e sábios". De acordo com essa propaganda, qualquer um que viva inteligente e moralmente estará livre de sofrimento. Do ponto de vista deles, devemos nos considerar felizardos por tê-los à disposição para providenciar as respostas inteligentes e morais que precisamos.
       A favor de todos os que já foram enganados pelos chavões das boas pessoas que apareceram para nos revelar que tudo vai ficar bem se pensarmos desta ou daquela maneira e agirmos deste ou daquele modo, Jó emite uma resposta angustiada. Ele rejeita o conselho e o conceito de um Deus idealizado, provido de explicações superficiais para cada circunstância. A oposição honesta de Jó continua sendo a melhor defesa contra os clichês de pensadores dogmáticos e a futilidade da tagarelice religiosa.
      O honesto e inocente Jó é introduzido num cenário de imenso sofrimento e cercado pela sabedoria religiosa convencionada da época, na forma dos discursos de Elifaz, Bildade, Zofar e Eliú. O contraste é inesquecível. Os conselheiros, metódica e pedantemente, recitam seus preceitos livrescos para Jó. No início, ele se enfurece de dor e protesta, mas depois silencia, com a fé dominada de pavor diante de Deus, que fala de dentro de uma tempestade - o "vendaval" da Divindade. A fé verdadeira não pode ser reduzida a banalidades espirituais nem comercializada nas feiras do sucesso. Ela é refinada no fogo e nos vendavais da dor.
      O livro de Jó não rejeita respostas propriamente. conteúdo para a religião bíblica. A secularização das respostas é que é rejeitada - respostas separadas da sua Fonte, o Deus vivo, a Palavra que tanto nos abate quanto nos cura. Não podemos ter a verdade acerca de Deus divorciada da mente e do coração de Deus.

      Por causa da nossa compaixão, não gostamos de ver as pessoas sofrendo. Do mesmo modo, nossos instintos buscam prevenir e aliviar o sofrimento. Sem dúvida, é um bom impulso. Mas, se quisermos de fato alcançar os que sofrem, devemos cuidar para não ser como os amigos de Jó, ou seja, não devemos oferecer nossa "ajuda" com a presunção de que podemos consertar a situação, pôr termo a ela ou torná-la "melhor". Podemos olhar para nossos amigos que sofrem e imaginar como poderiam ter um casamento melhor, filhos mais bem comportados, melhor saúde mental e emocional. Mas, antes de nos precipitarmos em consertar o sofrimento, precisamos nos lembrar de algumas coisas.
   Em primeiro lugar, não importa quão compreensíveis sejamos, não compreendemos verdadeiramente a total natureza dos problemas dos nossos amigos. Em segundo lugar, nossos amigos podem não querer nosso conselho. Em terceiro lugar - o lado irônico da questão -, é que na maioria das vezes as pessoas não sofrem menos quando estão comprometidas em seguir a Deus: é comum que sofram mais. Quando elas passam pelo sofrimento, a vida é transformada, aprofundada, marcada com beleza e santidade de modos memoráveis, jamais previstos antes do sofrimento.
       Assim, antes de insistir na prevenção do sofrimento - uma vez que não teremos muito sucesso mesmo -, talvez devêssemos entrar no sofrimento, participar dele à medida que nos tornamos capazes de adentrar o mistério e procurar por Deus. Isso quer dizer que precisamos parar de nos sentir tristes pelos que sofrem. Em vez de admirá-los, tentemos aprender com eles e, se nos permitirem, nos juntar a elas em protesto e em oração. A comiseração pode ser míope e condescendente; o sofrimento compartilhado pode ser dignificante e transformar nossa vida. Quando olhamos para o sofrimento, a oração e o louvor de Jó vemos que ele já abriu um caminho de coragem e integridade para seguirmos.

     Mas às vezes, é difícil saber como seguir o exemplo de Jó quando nos sentimos sós em nosso sofrimento, inseguros quanto ao que Deus quer que façamos. O que devemos perceber nesses períodos de escuridão é que o Deus que apareceu a Jó no vendaval está nos desafiando para um duelo. Embora Deus talvez não apareça diante de nós numa visão, ele se faz conhecer por alguma das muitas maneiras que descreve a Jó - do macro ao micro, das maravilhas das galáxias às pequenas coisas que acreditamos existir. Ele é o Criador do insondável Universo que nos cerca e é também o Criador do universo dentro de nós. Assim, existe esperança para nós - não da escuridão do nosso sofrimento ou das respostas convenientes encontradas nos livros, mas do Deus que vê nosso sofrimento e compartilha da nossa dor.
      A leitura mediativa de Jó nos levará a encarar as perguntas que surgem quando nossa vida não toma o rumo que esperávamos. Primeiramente, ouvimos as respostas comuns. Depois, fazemos outra vez as perguntas, com variações - e ouvimos as respostas novamente, com variações. E assim por diante. Toda vez que deixamos Jó expressar nossas perguntas, nosso sofrimento ganha em dignidade e subimos um degrau no limiar da voz e do mistério de Deus. Toda vez que rejeitamos o conselho milagroso das pessoas que nos veem e ouvem, mas não nos compreendem, como fez Jó, aprofundamos nossa disponibilidade e sinceridade à revelação que só acontece com a tempestade. O mistério de Deus supera a escuridão e a luta. Percebemos que o sofrimento questiona a nossa vida, não a Deus. As posições estão invertidas: o Deus Vivo está conosco. Deus está falando conosco. Assim, a experiência de Jó é confirmada e repetida mais uma vez no nosso sofrimento e na nossa vulnerável humanidade.
...

"Jó respondeu:
'Estou sem palavras, pasmado - fogem-me as palavras. 
Não deveria nunca ter aberto a boca!
Falei demais, muito mesmo. Estou pronto para me calar e ouvir.'"
(Jó 40:3-5)

Nenhum comentário

Tecnologia do Blogger.